VOZERIA

desordem, tumulto, balbúrdia, alvoroço, bagunça, confusão, algazarra…Vozeria!

Posts Tagged ‘história’

O Calado

Posted by Tiago Di Tullio Freitas em 26/10/2012

Era calado. Nunca fez mal a uma mosca. Sim. Chavão, mas verdadeiro. Sempre querido por todos. Porém, mal falava. Guardava pra si. Tudo. Embora estivesse sempre rodeado por família e amigos, abria pouco a boca para dizer qualquer coisa que fosse.

Seu mecanismo de defesa era fazer piadas. Puras. Sem ofender, sem querer intentar entrelinhas ou deixar comentários jocosos. Intermitentemente brincando com todos em quaisquer situações postas à sua frente.

Todavia, possuía opiniões. Porém, guardadas apenas para si. Era humano, oras! Então, mudou a postura e passou a falar. A tentativa era apenas mostrar a própria verdade. Quem realmente era. Tomar partido. Ser alguém além do “brincalhão calado”.

Passou a ser tolhido. Criticado. Julgado. Posto à prova. Perdeu amigos, perdeu o emprego. Não conseguiu mais trabalhar. Tampouco ganhou o respeito que sempre desejara. Calou-se. E assim permaneceu…

À mercê das opiniões alheias, tornou-se aquele quem, no máximo, balançava a cabeça. Pra cima, pra baixo, esquerda, direita…Sem mais comentários. Entristeceu. Deprimido, definhou.

No dia de seu enterro, lembraram-se dele pela “timidez”. Palavra que odiara e lembrança de personalidade que menos sonhou em vida para levar à eternidade.

Cruel, assim foi sua passagem pelo mundo. Sem direitos. Apenas deveres. Aparências. Morreu calado.

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Os Assaltantes, a Vingança e os Hipócritas

Posted by Tiago Di Tullio Freitas em 04/10/2012

A casa era simples. O bairro, praticamente inteiro comercial, tinha um cantinho especial apenas para residências. Nesta, moravam cinco pessoas: mãe, filhos gêmeos de onze anos, a sogra, de 81, e o pai, empresário, dono de uma pequena papelaria naquela vizinhança.

O carro chegou sem fazer alarde. Eram 3h30 da madrugada. Dois homens desceram encapuzados e armados. Um terceiro permaneceu no veículo. Apenas vigiaria. Sabiam que o portão estaria aberto. Não era costume trancá-lo. Entraram sorrateiros e passaram, também, pela porta de frente.

Não fariam mal às crianças. Acordaram os outros três moradores e, no quarto do casal, colocaram os três enfileirados de joelhos em frente à cama enquanto roubavam. Acharam dinheiro, mas não encontravam as tais joias que tanto procuravam. Aquela família não tinha joias.

– Enquanto a gente não achar o ouro, vamos ficar aqui! – bradou um deles.

– Velha desgraçada! – gritou o outro, enquanto socou com toda a força o rosto da matriarca, já idosa. – Me fala cadê as joias, filha da puta! Eu vou matar essa velha nojenta! – Neste instante, chutou a barriga da sogra. Usava uma botina e calçava 43.

Em prantos, a mãe desesperou-se e pediu, clamando em nome de Deus, que deixassem a casa e não fizessem mal àquela senhora. Nada adiantava. Armados, faziam ameaças de todos os tipos e falavam palavras do mais baixo calão. Terroristas, além de ladrões.

– Um escritório! – Percebeu um meliante, dirigindo-se ao cômodo.

O outro passou a mexer em um guarda-roupas para procurar as joias e ficou de costas para as vítimas, ainda ajoelhadas. Foi o tempo necessário para o pai passar o braço por debaixo do colchão e alcançar uma arma calibre 38.

Não esperou o bandido virar-se. Acertou na nuca. Sem defesa. Ao ouvir o tiro, o segundo assaltante voltou correndo para o quarto. Assim que entrou, viu a mãe já chamando a polícia. O segundo disparo foi ainda mais rápido. Foi o tempo de ele virar o olho para o canto para ser atingido na orelha direita.

Pela janela, o pai viu o terceiro homem descer do carro e apontou. Na escuridão, apertou o gatilho assim que ele abriu o portão. A luz automática ascendera-se em seguida. Saldo: três bandidos mortos.

Essa é a história dos assaltantes e da vingança. Mas…E os hipócritas? Os hipócritas serão aqueles que, ao lerem esse conto, fingirão não ter vibrado com o fim.

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Linha Imaginária

Posted by Tiago Di Tullio Freitas em 07/06/2010

Como assistir a um filme que se passa na época da Segunda Guerra Mundial sem esperar comoção, violência, se indignar e ficar, na imensa maioria das vezes, com raiva? Impossível. Mesmo sendo, esse filme, sensível, e diferente dos outros que mostram trincheiras, bombas, sangue e patriotismo exacerbado. Você vai sentir tudo isso ao ver “O Menino do Pijama Listrado”. Porém, há pouca violência no filme. Digamos que é inversamente proporcional ao sentimento que se há de ter ao final da história.

O filho de um comandante nazista se vê diretamente ligado a um menino em um campo de concentração, quando seu pai é obrigado a mudar-se de Berlim a uma área afastada, justamente para poder ser um dos responsáveis pelo local. Ambos os meninos, com apenas oito anos de idade, tem visões diferentes sobre a vida no Campo de Concentração, sem ter a exata noção do que se passa por lá, os motivos e as razões. O encontro diário entre os meninos tem consequências finais arrebatadoras. Deixam o coração apertado e nós intermináveis na garganta. Separados apenas pela cerca de arame farpado, buscam alento um no outro, pela solidão e completa ignorância da situação que os rodeia.

Havia comprado esse DVD há mais de um ano, mas ainda não tinha juntado a coragem necessária para enfrentar um possível sofrimento, dado que meu histórico a filmes dramáticos são de 100% lágrimas. Ontem, porém, acompanhado, fui “obrigado” a assistir. Uma obrigação que tornou-se prazerosa e surpreendente, justamente pela sensibilidade do diretor ao lidar com o assunto, tão complexo e com grandes possibilidades de controvérsias. Porém, ao final, questionamentos: será que os alemães tinham mesmo a certeza do que estavam fazendo? Será que algum deles aprendeu alguma coisa, do modo mais difícil?

Apelo psicológico fortíssimo, cenário mais que real, bela direção de arte e boa escolha dos atores mirins. Além da sensação de que, na verdade e no fundo, todos sabiam (e sabem) que a linha que separa e segrega um ser humano de outro é imaginária. E quem ainda acha que cor, raça, origem e nível social etc, são pretextos para se criar barreiras e diferenças entre semelhantes, acaba aprendendo na marra…Recomendo! Pra ver, rever e, principalmente, refletir…

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